sábado, 24 de janeiro de 2009

Anarquismo Cristão

Por Leão Tolstoi, anarquista cristão, escrito em 1905 sobre cristianismo e anarquismo no contexto da Revolta de 1905, que Lênin chamou de ensaio para a Revolução Russa de 1917 :

Considero não apenas o governo russo, como qualquer governo, como uma instituição complicada, consagrada pela tradição e pelo costume a cometer impunemente a violência, os crimes mais espantosos, as matanças, a pilhagem, a promoção do alcoolismo, o embrutecimento, a depravação, a exploração do povo pelos ricos e pelos poderosos. Por esta razão penso que todos os esforços dos que desejam melhorar a vida social devem tender a livrar os homens dos governos, cuja inutilidade é em nossa época cada vez mais evidente. Este objetivo, segundo meu entendimento, se consegue por apenas um meio, e único: pelo aperfeiçoamento interior, religioso e moral dos indivíduos.

Quanto mais superiores forem os homens do ponto de vista religioso e moral, melhores serão as formas sociais sob as quais se agruparão, e o governo terá que recorrer menos aos procedimentos do mal e da violência. Caso ocorra o contrário, homens religiosa e moralmente piores, o governo será mais poderoso e será maior o mal que cometerá.

De forma que o mal causado aos homens pelo governo é sempre proporcional ao estado moral e religioso da sociedade, qualquer que seja sua forma.

Sem embargo, certas pessoas, diante de todo o mal cometido na atualidade pelo governo russo -- um governo especialmente cruel, grosseiro, estúpido e embusteiro -- pensam que todo esse mal não se produziria se o governo russo estivesse organizado como deveria estar, sobre o modelo de outros governos existentes (que são as mesmas instituições, boas para cometer impunemente sobre seus povos todo tipo de crimes); e para buscar remédio, essas pessoas empregam todos os meios disponíveis pensando que a mudança de formas exteriores pode modificar a estrutura.

Uma atividade semelhante me parece ineficaz, fora da razão, arbitrária (ou seja, que os homens atribuam a si mesmo direitos que não têm) e inútil.

Considero esta atividade ineficaz, porque a luta pela força -- em geral, pelas manifestações exteriores (e não unicamente pela força moral) por parte de um grupo pequeno de pessoas contra um governo poderoso que defende sua existência e que para isso dispõe de milhões de homens armados e disciplinados, e de milhões de rublos -- sob o aspecto do possível êxito, não é mais do que ridícula, e é evidente que, sob o ponto de vista da sorte desses desgraçados, deixando-se arrastar perdem sua vida nesta luta desigual.

Esta atividade me parece inaceitável, posto que até mesmo na hipótese do triunfo dos que realmente lutam contra o governo, a situação dos homens não poderia melhorar.

O atual governo, que procede pela força, é tal, somente porque a sociedade que domina está composta de homens moralmente bem débeis, onde uns, guiados pela ambição, pelo lucro e pelo orgulho, sem serem molestados pela consciência, tratam por todos os meios de conquistar e manter poder; os outros por medo e também por amor à ganância e à ambição, ou graças ao embrutecimento, ajudam aos primeiros ou também se submetem. De qualquer modo e sob qualquer forma que esses homens se agrupem, resultará sempre um governo semelhante e igualmente violento.

Considero esta atividade anormal, porque os homens, que na atualidade lutam na Rússia contra o governo -- os membros liberais dos Zemstvos, os médicos, os advogados, os escritores, os estudantes, os revolucionários e alguns milhões de trabalhadores separados do povo influenciados pela propaganda -- por mais que creiam e se intitulem representantes do povo, não tem nenhum título para ele.

Esses homens, em nome do povo, exigem liberdade do governo, liberdade de imprensa, liberdade de consciência, liberdade de reunião, a separação da Igreja e do Estado, a jornada de trabalho de oito horas, a representação nacional, etc. E perguntado o povo, os cem milhões de camponeses sobre o que pensam dessas reclamações, o verdadeiro povo custará responder, porque todas essas reclamações, até mesmo a jornada de trabalho de oito horas, para a grande massa dos camponeses não tem nenhum interesse.

Os camponeses não necessitam de nada disso, o que lhes falta é outra coisa. O que esperam e desejam, faz muito tempo, o que pensam e continuamente falam -- e para o qual não há nenhuma palavra em todas as proclamações e discursos liberais, e que apenas são mencionados nos programas revolucionários e socialistas -- o que o povo espera e deseja é a franquia da terra do direito de propriedade, a socialização da terra. Quando o camponês usufruir da terra, seus filhos não mais irão para as fábricas, e os que quiserem ir estabelecerão por si mesmos o número de horas de trabalho e de salário.

É comum ouvir-se: dêem liberdade e o povo exporá suas reclamações. Isso é falso. Na Inglaterra, França, e América, a liberdade da imprensa é absoluta, sem embargo, nos parlamentos não se fala da socialização da terra, não se fala da socialização nos periódicos, e a questão do direito do povo sobre a terra sempre acaba relegada ao último lugar.

Por esta causa os liberais e os revolucionários, que dizem interessar-se e conhecer as necessidades do povo, não tem nenhum direito para com ele; não representam o povo, os liberais e os revolucionários não representam mais do que eles mesmos.

Também, segundo minha opinião, esta atividade além de ser ineficaz, inaceitável, arbitrária, é também prejudicial, posto que afasta os homens daquela atividade única -- o aperfeiçoamento moral do indivíduo -- pela qual, e somente por ela, pode-se alcançar os objetivos dos homens que lutam contra o governo.

Um não impede o outro, se me objetará. Mas isso não é verdade. Ninguém pode fazer duas coisas de uma só vez. Ninguém pode aperfeiçoar-se moralmente, e ao mesmo tempo tomar parte em atos políticos que arrastam os homens às intrigas, astúcias, lutas, cólera, chegando até mesmo ao assassinato. A liberdade política não ajuda a nos livrar da violência governamental, pelo contrário, torna os homens ainda mais ineptos à única liberdade que pode redimi-los.

Enquanto os homens forem incapazes de resistir às seduções do medo, do lucro, da ambição, da desigualdade, que humilham a uns e depravam a outros, formarão sempre uma sociedade composta de violadores, de impostores e de suas vítimas. Para que isto não suceda, cada indivíduo deve fazer um esforço moral sobre si mesmo. Os homens sentem isso no fundo de sua alma, mas de um modo ou de outro preferem esperar, sem fazer esforços, o que sempre se consegue pelo esforço.

Explicar, por esforços próprios, sua missão para com a sociedade, estabelecer sua relação para com os homens, ter como base a lei eterna do não fazer aos demais o que não queres que façam a ti, reprimir suas más paixões, que nos entregam ao poder dos outros homens, não ser nem amo nem escravo de ninguém, não fingir, não mentir, nem por temor nem por lucro, não enganar as exigências da lei suprema da consciência. Tudo isso exige esforço.

Imaginar, pelo contrário, que a instituição de determinada forma de governo conduzirá, por uma via mística qualquer, todos os homens à eqüidade e à virtude. Imaginar que para chegar a isso, sem nenhum esforço do pensamento, basta repetir o que dizem os homens de um partido, mover, discutir, mentir, fingir, insultar e debater. Ora, tudo isso se faz por si só, sem que haja necessidade de esforços. Os homens que querem que assim seja, acabam persuadidos de que assim é.

E então surge uma teoria cheia de regras a qual trata de provar que os homens podem, sem esforços, obter os resultados do esforço. Essa teoria é semelhante à anterior, com regras que pregam sua própria perfeição, a fé na redenção dos pecados pelo sangue de Cristo ou a graça divina transmitida pelos sacramentos, funcionando como substitutos ao esforço pessoal. Essa aberração psicológica baseada na teoria de melhorar a vida social pela mundança das formas exteriores, produziu e produzirá males horríveis, e mais do que qualquer coisa, impede o verdadeiro progresso da humanidade.

Os homens reconhecem que tem em sua vida algo de ruim, algo que é preciso melhorar. Mas ao homem não lhe é factível mais do que melhorar uma coisa: a si mesmo. Mas para melhorar a si mesmo, é preciso antes de tudo, reconhecer o que não é bom, e isso, o homem não quer fazer. Eis aqui onde se fixa toda sua atenção, não sobre o que esteve sempre em nossa faculdade de fazer, e sim sobre as condições exteriores que não são de nossa incumbência e cuja mudança não pode melhorar a situação dos homens, como tampouco o odre melhora a qualidade do vinho. E aqui começa uma atividade estéril, enojada, orgulhosa (pois corrigimos os outros), perversa (pode-se matar aos que constituem um obstáculo ao bem comum), e depravada.

Reconstituamos as formas sociais e a sociedade prosperará. Como seria bom se o bem da humanidade se lograsse tão facilmente! Por desgraça, ou melhor, por fortuna, pois se alguns pudessem tirar a vida de outros, isso seria a maior desgraça dos homens, e as coisas não são assim. A vida humana se modifica não pela mudança das formas exteriores mas apenas pelo trabalho interior de cada indivíduo sobre si mesmo. E cada esforço para operar sobre as formas exteriores ou sobre os demais, não faz mais do que interferir e diminuir a vida daqueles que -- como todos os políticos, reis, ministros, membros do parlamento, revolucionários de todos os tipos, liberais -- cedem a este erro pernicioso.

Os homens que julgam de uma maneira superficial, os homens ligeiros que se divertem com a constante carniçaria fraticida que ocorre em São Petersburgo e com todos os acontecimentos que giram em torno desse crime, pensam que a causa principal de tais acontecimentos está ligada ao despotismo do governo russo, e que se a forma autocrática do governo russo fosse substituída pela constitucional ou republicana, semelhantes acontecimentos não poderiam repetir-se.

Mas o mal principal (se alguém prestar atenção em sua importância) que sofre agora o povo russo, não está nos acontecimentos de São Petersburgo; está na guerra afrontosa e cruel, prontamente iniciada por uma dezena de homens imorais. Esta guerra já matou centenas de milhares de russos, e ainda ameaça matar ou mutilar outros tantos; tem lançado ruína não apenas aos homens desta geração, como também aos da geração futura que arcarão com os enormes impostos resultantes das dívidas, fora a perda das almas dos homens depravadas pela guerra. O que ocorreu em São Petersburgo em 9 de janeiro não é nada comparando-se com o que ocorre no campo de batalha onde se mutilam cem vezes mais homens do que os que pereceram em 9 de janeiro em São Petersburgo. E a perda desses homens na guerra não revolta a sociedade como as matanças de São Petersburgo, pelo contrário, a maioria olha isso tudo com indiferença, outros olham com compaixão o envio para lá de milhares de homens para a mesma insensata matança, que não tem objetivo.

Este mal é horrível! Assim, pois, se é para falar dos males do povo russo, há que se falar da guerra; os acontecimentos de São Petersburgo não são mais que uma circunstancia acessória que acompanha o profundo mal que existe, e se é necessário encontrar o meio que nos livre destes males, há que ser de tal caráter, que nos livre ao mesmo tempo dos dois.

A mudança da forma despótica de governo para uma forma constitucional republicana, não livrará a Rússia nem do primeiro nem no segundo mal. Todos os Estados constitucionais -- como o Estado russo -- estupidamente se armam, e -- como a Rússia -- quando os poucos homens que detem o poder resolvem, enlevam seu povo à luta fraticida; a guerra da Abissínia, do Transvaal, da Espanha, de Cuba e das Filipinas, da China, do Tibete, a guerra contra os povos da África, todas estas guerras foram feitas tanto por governos constitucionais como por governos republicanos; igualmente todos esses governos, quando crêem necessário, reprimem com ferro e fogo as revoltas e manifestações da vontade do povo quando as consideram violação da legalidade, ou seja, aquilo que o governo, em certo momento considera ser a lei.

Quando há em um Estado uma constituição qualquer, o poder se mantêm pela violência, poder que pode ser monopolizado por alguns homens, por meios diferentes. De qualquer forma, sempre haverá probabilidade de ocorrer os mesmos acontecimentos que agora ocorrem na Rússia -- a guerra e a repressão dos revoltosos.

Assim, a importância dos fatos que tem ocorrido em São Petersburgo, não tem nada a ver com o que pensam esses homens apressados, a saber, esses homens que nos tem mostrado o mal proceder do governo despótico da Rússia, e que por conseqüência tratam de substituí-lo por um governo constitucional. A importância desses acontecimentos é muito maior; o fato do governo russo ser em seus atos especialmente grosseiro, faz-nos ver com mais clareza o mal proceder do governo russo do que o mal proceder dos outros governos, a questão não é a inutilidade de um ou de outro governo, mas a inutilidade de todos os governos, ou seja, daquele grupo de homens que tem a possibilidade de impor sua vontade em cima da vontade da maioria do povo.

O conhecimento, a situação, e as impressões dos russos, dos europeus, e sobretudo dos americanos, são completamente análogas às dos homens que subiram ao templo, dos quais nos fala o evangelho de Lucas capítulo 18:10, 11, 13, o fariseu e o cobrador de impostos. (*)

Na Inglaterra, Alemanha, França, América, o proceder maléfico dos governos estão bem desmascarados, tanto que os cidadãos destes países, em vista dos acontecimentos da Rússia, imaginam sinceramente que o que passa na Rússia não ocorre além dela, e que eles gozam de uma liberdade absoluta e que não tem necessidade de melhorar sua situação. Mas a verdade é que se encontram em um estado ainda mais extremo de escravidão: dos que não compreendem que são escravos e estão orgulhosos de sua situação.

Sob este aspecto nossa situação, a dos russos, é mais evidente (no que diz respeito à violência é mais grosseira) e melhor situada, porque nos é fácil compreender que cada governo sustentado pela força é um grande e inútil chicote; por esta razão, o dever dos russos e de todos os homens escravizados pelos governos está não em substituir uma forma de governo por outra, mas em suprimir todo governo.

Em suma, minha opinião sobre os acontecimentos é a seguinte: o governo russo como todos os governos que existem -- americano, francês, japonês, inglês -- é um horrível, inumano, prepotente bandido cuja atividade malfeitora se manifesta incessantemente. Por este motivo todos os homens razoáveis devem, com todas suas forças, livrar-se de qualquer forma de governo, como os russos devem livrar-se do governo russo.

Para livrar-se dos governos não é necessário lutar contra eles pelas formas exteriores (insignificantes até o ridículo diante dos meios de que dispõem os governos) é preciso únicamente não participar em nada, basta não sustentá-los e então cairão aniquilados. E para não participar em nada dos governos nem sustentá-los é preciso estar livre da fragilidade que arrasta os homens aos laços dos governos que lhes fazem seus escravos ou seus cúmplices.

Livrar-se desta fragilidade não é possível exceto ao homem que formou um juízo sobre o Todo, isto é, sobre Deus, e cuja lei única, superior, desliga desta fragilidade o homem religioso e moral.

É aqui que os homens vêem e compreendem com mais clareza o mal proceder dos governos -- como ocorre atualmente, nós, os russos, compreendemos com clareza o mal desse nosso governo estúpido, cruel e embusteiro, que já sacrificou centenas de milhares de homens, que arruína e deprava milhões de pessoas, e que agora lança os russos ao fraticídio -- os homens devem tratar de formar neles mesmos uma consciência limpa, firme, religiosa; devem tratar de cumprir com mais escrúpulos a lei divina que emana desta consciência e que exige de nós não a transformação do governo existente ou o estabelecimento dessa organização social que, segundo nossas limitadas opiniões, garantiriam o bem geral, mas exigir de nós apenas uma coisa; o aperfeiçoamento moral, ou seja, o despojo de todas as debilidades, de todos os vícios que fazem de nós escravos dos governos e cúmplices de seus crimes.

Havendo terminado este artigo e perguntava-me se devia publicá-lo ou não, quando recebi uma carta anônima bem importante.

Aqui vai:

Desde há algum tempo não consigo recobrar a calma. Quando alguém começa a falar de trabalhadores mortos, sinto ódio por eles e sofro uma espécie de mal físico.

Há cadáveres aos montes, mulheres e crianças ensangüentadas conduzidas em carruagens ... Mas é isso que é horrível? Não! Ver os soldados com seus semblantes bonachões, vulgares, sem pensamento, sem compreensão, isso que na realidade é horrível. Os soldados que golpeiam a neve com a sola de suas botas, esperando a hora de fuzilar alguém. Horrível é também o povo, com seu aspecto ordinário, curioso. Até mesmo os tipos mais bondosos saem pelas ruas para ver por si mesmos ou saber pelos outros sobre coisas espantosas, sobre cadáveres ensanguentados, mutilados, etc. Como se pudesse haver algo mais espantoso do que esses soldados como eles sempre foram. Quer dizer, aquelas boas pessoas não buscam outra coisa senão estremecimentos de horror.

Mas não sei como definir o que é mais terrível. Talvez seja, assim me parece, o fato dos soldados não compreenderem o significado de tudo aquilo, a vulgaridade de seus semblantes, pois dalí a uma hora voltarão a matar, a tingir a terra com sangue; o mais espantoso em meu modo de ver é a ausência de qualquer laço entre os homens. Sim, acredito que isto é o mais terrível! Embora sejam de uma mesma aldeia, a única coisa que os diferencia é que enquanto alguns vestem um capote cinza, outros vestem um capote negro, e é inteiramente incompreensível porque os de cinza gracejam falando do frio enquanto olham pacificamente para os homens vestidos de negro que passam diante deles, cada qual sabe que tem cartuchos para dez disparos e que uma ou duas horas mais tarde esses cartuchos serão usados. E os homens vestidos de negro olham para eles como se isso devesse ocorrer.

Lêem sobre isso nos livros, falam sobre o que separa os homens e não compreendem o quão horrível isso é, tais coisas tornam-se visíveis por toda parte, como ocorre nesses dias por aqui. Repentinamente tudo isso deixa de existir e os capotes cinza, os casacos negros, as jaquetas elegantes não mais funcionam, e todos passam a se ocupar de seus afazeres, cada qual de maneira diferente; ninguém se espanta, ninguém entre eles sabe porque alguns atiram, porque outros caem, porque os demais observam.

Normalmente, sempre surge um ou outro abominando essa via terrível, buscando sem hostilidade nem ódio à voz da conciliação! Mas nestes dias tudo isso foi momentaneamente interrompido! A única coisa que restou foi esta única e espantosa atitude. Parece que um abismo te separa de cada homem, de forma que tú não podes colocar-se a disposição dele. Este sentimento é espantoso!

Cinco vezes peguei e larguei esta carta, até que por fim decidi-me escrevê-la. Talvez porque seja incômodo calar-se para sempre. Todos falam da necessidade de ajudar aos trabalhadores e parecem compadecer-se de sua sorte. Mas não é a situação dos operários que é horrível, não são eles que necessitam de ajuda, e sim aqueles que arrastam o povo, e que tem pena dele, e aqueles que no dia seguinte olham os vidros quebrados, as portas arrebentadas, os sinais das balas, e caminham sem ver o sangue gelado sobre a calçada, pisoteando-o.

Sim, o principal é que existe mesmo uma coisa que separa os homens, e de tal forma que elimina qualquer laço entre eles. O importante é pois isolar o que separa os homens e substituí-lo por algo que os una. O que separa os homens é toda forma exterior violenta de governo; a única coisa que os une é a aproximação de Deus, o inspirar-se nEle. Deus é único para todos, aproximar-se de Deus é a única forma dos homens se aproximarem uns dos outros.

Reconheçam ou não, diante de nós disponta um mesmo ideal de perfeição, superior, e apenas a aspiração a este ideal pode destruir a desunião e aproximar os homens.           ”

Yasnaia Poliana, fevereiro 1905.


Nota

(*) «Dois homens foram ao templo orar. Um deles era um fariseu orgulhoso, e o outro um desonesto cobrador de impostos. O orgulhoso fariseu 'orava' assim: 'eu Lhe agradeço, ó Deus, porque não sou um pecador como todos os demais, especialmente como aquele cobrador de impostos ali! Porque eu nunca engano os outros, eu não cometo adultério, jejuo duas vezes por semana, e dou a Deus um décimo de tudo quanto ganho'. Mas o cobrador de impostos ficou em pé de longe e não tinha coragem nem para levantar os olhos ao céu quando orava, porém batia no peito com grande arrependimento, exclamando: 'Ó Deus, tenha misericórdia de mim, um pecador!'» Lucas 18:10 a 13

2 comentários:

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  2. Texto muito bem selecionado!

    Concordo que temos que começar a mudar o nosso interior e nossa forma de agir para mudar certas condições. O caráter moralizante do cristianismo é bem contraditório com atitudes de algumas instituições, então tirá-las do centro tornaria essa religião até mais coerente. (será que entendi direito?) Acredito que a interferência do ego nesse processo seja muito grande. Preocupação com status, vestir máscaras sociais, a falsa sensação de poder que "permite" violentar tudo e todos ajudam a armar esse circo que não tem a mínima graça.


    Beijos!

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